sexta-feira, 26 de junho de 2009

Oliver Twist

Charles Dickens mostra, em Oliver Twist, todo sofrimento que uma criança orfã e perdida em Londres poderia sentir. Nesta série de 2007, todo esse ambiente surge como um circo, uma grande bagunça escura, onde a calma e a mansidão só aparecem na brilhante casa da família que resgata Oliver.
Para aqueles que leram o livro e não aceitam uma mudança no roteiro, não assistam. A história ficou bem diferente, por exemplo, tiraram uma casa inteira. Oliver e Bill Sikes assaltam uma casa distante de Londres e é lá que Rose se encontra e onde o garoto passa grande parte do tempo. Na versão da BBC, Rose mora com o Sr. Brownlow, aquele que tira Oliver do tribunal e diz que este não o roubou. E só tem essa casa, a outra sumiu. No caso, Oliver, após o assalto, volta com Bill e é tratado por Nancy. As mudanças são BEM perceptíveis.
Todo esse circo que é Londres tem um mestre de cerimônias. E este só poderia ser Fagin (Timothy Spall).

Muito bem interpretado, por sinal. Uma coisa que Fagin tem no livro é que você nunca sabe se ele é bom ou mal. Quando ele quer ajudar ou matar Oliver? Você fica na dúvida, mesmo que queira ter certeza de que ele não vai fazer nada de bom. E esses são mesmo os sentimentos de Fagin: ele cuida dos meninos, desde que os mesmos façam cumpram seus deveres. E essa visão dupla deve-se, em partes, por causa da presença de Bill Sikes (Tom Hardy).

Bill é o bonitão. Não tem nenhum homem no livro que seja descrito com uma aparência mais ou menos. Bill é um dos poucos "jovens" da coisa e é complicado de entender, em um primeiro momento, por que Fagin se submete a ele. Vamos combinar que o cara grandão aí de cima não tem motivos para ficar lavando os pés do Sikes. O fato é que Bill tem todo um jeito psicopata e, por isso, que com ele as coisas acontecem. Fagin só tem aqueles meninos, as grandes chances vem com Bill. No final a gente percebe que toda essa loucura faz com que ele perca até a mulher que, talvez, um dia, ele tenha amado, Nancy (Sophie Okonedo).

Ah, a Nancy é muito legal. Assim como Fagin, não tem como saber se ela está agindo por maldade ou não. Mas eu acredito que, no fundo, ela sempre foi uma boa pessoa. E, podem falar o que quiserem, mas eu não a tinha imaginado negra, culpa das séries da BBC que nunca tem alguém negro. É legal ver como ela se delicia quando lhe respeitam ou lhe dão carinho, até mesmo se esse vier do Bill Sikes. Com certeza uma das melhores cenas, tanto no livro quanto na série, é o encontro dela com Rose (Morven Christie).

Rose é uma daquelas personagens que sempre tem. Ela cuida de Oliver nas situações difíceis e acredita no menino. É uma moça boazinha da sociedade que lembra as personagens de Jane Austen. Na série, isso muda um pouco. Rose leva a realidade para as classes altas. A melhor parte é quando ela diz que crianças estão sendo espancadas nas ruas enquanto eles ficam em casa tomando sopa. O encontro das duas moças é a junção das duas vidas de Oliver e uma se une a outra justamente por causa do menino. A descrição de Dickens nessa parte é ótima mostrando como os dois lados se sentem.

A lém destes, temos o Mr. Monks ou Edward (Julian Rhind-Tutt) que causa calafrios. Mr. Brownlow (Edward Fox), tio de Rose, que no livro é amigo de Mr. Grinwig, um dos meus personagens favoritos por causa de todas aquelas dúvidas quanto a Oliver e ele, simplesmente, foi apagado da série (uma das minhas partes favoritas é quando os dois ficam olhando o relógio esperando a volta de Oliver). Toda família dos funerários que aparece logo no início é assustadora e Noah é insuportável (como deve ser). Mr. Bumble (Gregor Fisher) é usado, durante o casamento, por Mrs. Corney (Sarah Lancashire) assim como ele usava as crianças (bem-feito).

Mas esse post inteiro foi uma pura enrolação, os principais motivos para você assistir são essas duas carinhas:

Vai, fala se você não tem vontade de cuidar e apertar esse menino. Oliver (William Miller) tem um ar de coragem nessa série. No livro eu até o acho meio chato, chorando pelos cantos, mesmo que ele tenha todos os motivos para fazer isso. No primeiro episódio ele estufa o peito e fala poucas e boas para os líderes do orfanato, coisa que eu dificilmente pensaria que o Oliver do livro faria. O ator tem só 11 anos, mas atua lindamente, com um ar todo angelical mesmo quando tem que lutar para sobreviver. E o menino declarou em entrevista que pensa em trocar a atuação pelo futebol. Não faça isso, POR FAVOR!

Raposa (Adam Arnold) é o melhor. Não dá tanta vontade de apertá-lo como acontece com Oliver, mas vocês ainda não o ouviram falando. Ele coloca as frases com um jeito meio safado, espertalhão, a forma como simplesmente o Raposa falaria. E mostrou uma coisa que eu nem tinha pensado: ele pode muito bem ter sentido ciúmes. O das bochechas chega de repente e vai tomando o lugar dele, lógico que o Raposa sente alguma perda. Ele parece tão adulto, porém é só uma criança.
Além dessas atuações apaixonantes e excluindo o fato das mudanças radicais no roteiro, a série é um trabalho muito bem feito. O jogo de claro-escuro nos ambientes, os figurinos que vão desde o requinte até as roupas usadas e maiores que os orfãos vestem, as crianças sujinhas da cidade, o uso das gírias e de um palavreado baixo e, claro, a trilha sonora que acompanha cada segundo perfeitamente com um tom brincalhão.

Links: Site da PBS (a série é da BBC, mas o site é da PBS, alguém explica?); review com informações interessantes no Jane Austen World.

2 comentários:

Elaine disse...

A moça da quarta foto não é a que fez Jane Bennet em "Lost in Austen"?

Bárbara Garcia disse...

Eu ainda não assisti Lost in Austen (atrasada...), mas pesquisei por aí e é essa atriz mesmo com o cabelo cheio de cachos. Confesso, ela nasceu com cara de Jane Bennet.