domingo, 12 de julho de 2009

Lucíola (José de Alencar)

Lucíola é um livro que, provavelmente, não seria escrito hoje em dia. Apesar de todas as brigas, o gosta ou não gosta, o grande dilema do casal, na realidade, era o fato de Lúcia ser uma prostituta e, obviamente, casaria sem ser virgem.
Paulo chega ao Rio de Janeiro e logo se apaixona por Lúcia. Ele a ama tanto, que nem percebe a profissão da moça. Lúcia aparenta ser uma mulher bem forte que já suportou situações ruins e pode enfrentar piores. Mas, no decorrer do livro, você percebe que ela só quer viver normalmente com Paulo e, para isso, ela faz tudo para o marido.
Lógico que isso não acontece de uma página para outra. No começo você sente até pena do Paulo porque ele a ama tanto e ela não está nem aí para ele, é só mais um. Depois você acaba ficando com raiva dele, porque a mulher faz tudo certinho e o moço a acusa de ter amantes.
Lúcia descobre que alguém gosta dela não pelos prazeres que ela possa oferecer, mas somente pelo que ela é. Depois de vários boatos (como aquele que Lúcia sustentava a casa para Paulo ou o que ela mantinha um amante durante alguns meses e depois o "jogava fora") e várias brigas e separações por causa desses boatos, finalmente os dois começam a viver como uma casal. Lúcia se torna uma "boa" mulher e não se joga mais aos amores carnais quando se encontra com Paulo, principalmente pelo fato de que descobrimos que ela tem uma irmã mais nova e precisa cuidar da garota e, sei lá, dar o exemplo.
Apesar de tudo, a "antiga" Lúcia continua dentro da nova e ela não consegue viver com essa realidade. Uma das passagens mais bonitas é quando os dois olham uma poça d'água e ela diz que seu corpo é como a lama no fundo, mas a alma permanece límpida e pura na superfície. Lúcia se tornou prostituta aos 14 anos para sustentar a família e, para ela, sua "pureza" havia se perdido junto com as possibilidades de casar com o homem que ela amava. Ela acreditava tanto nisso que chega a pedir para Paulo casar com sua irmã e desse modo possuí-la.
Atualmente, nessa bagunça que é um pega o outro e outro e outro, Lúcia poderia gritar ao mundo inteiro que estava casando sem ser virgem e ninguém ficaria horrorizado. Mas, eu confesso, sou muito conservadora para essas coisas, daquelas que acha que ninguém tem que ter pressa. E se eu que sou assim encontrei em Lucíola um livro delicado e cheio de figuras de linguagem belíssimas, então deve ser uma boa leitura para qualquer um (e leiam os outros perfis de mulher, Diva e Senhora).
PS: a Lúcia faz aniversário no mesmo dia que eu e tem a minha idade. Ás vezes fico com medo dessas coincidências.

3 comentários:

entremares disse...

" mas a alma permanece límpida e pura na superfície...."

É esse o encanto de sermos humanos, não é? Mas nem todos conseguem escrever as coisas desse jeito tão simples assim...

Uma boa semana para você...

Elaine disse...

Confesso que não é o meu José de Alencar preferido, gosto mais de Senhora e Guarani. Me irrita a forma como Lúcia se rebaixa para se tornar digna de ter Paulo em sua vida. Claro que temos que considerar a época em que o romance foi escrito, etc, mas, mesmo assim, não me desce.

george disse...

Discordo da sua opnião Elaine, pelo fato de que devemos reconhecer nossos erros e deixar o orgulho de lado! Ela abre mão de muitos caprichos por tudo que ela fez na vida como prostituta, no fundo ela sempre foi uma boa pessoa, mas quem garantiria que somente ele se entregando, não haveria traição da parte dela? Ela está muito certa em pedir perdão, pois desta forma deixou ele muito mais confiante em relação a amá-la, pois houve um arrependimento sincero!!!

Da mesma forma seria para ele se vivesse como ela e quisesse purificar-se por meio do amor.